7. ARTES E ESPETCULOS 2.10.13

1. LIVROS  O CREBRO DOS QUADRINHOS
2. LIVROS  O FUTEBOL BEM ESCRITO
3. CINEMA  PICO FOTOGNICO
4. MSICA  CANTA, DANA, ATUA...
5. TELEVISO  DESESPERAI-VOS,  O FIM
6. VEJA RECOMENDA
7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
8. J.R. GUZZO  DESCIDA AO INFERNO

1. LIVROS  O CREBRO DOS QUADRINHOS
A biografia de Will Eisner detalha a vida do visionrio que elevou as HQs  categoria de arte e ajudou a fazer desse um negcio multibilionrio
FILIPE VILICIC 

     Tornou-se clich dizer que, "sem fulano, algo no seria o mesmo". E  um clich usado quase sempre sem critrio. Mas no h outra maneira de definir o nova-iorquino Will Eisner: sem ele, as histrias em quadrinhos e, por extenso, a cultura pop americana no seriam as mesmas. Quando Eisner  morto em 2005, aos 87 anos  iniciou sua carreira como quadrinista, na dcada de 30, seus colegas eram beberres e pobretes que tinham vergonha da prpria profisso. Ele se portava como um ser extico a esse meio: trabalhador, pouco afeito a noitadas e com orgulho de ser quadrinista. Eisner tinha certeza de que os gibis no continuariam restritos s crianas. Considerava chegada a hora de amadurecer o gnero e de introduzir nos desenhos temas complexos. Ele tambm via as HQs como um negcio promissor, que enriqueceria artistas. No s acertou nos prognsticos  o que faz dele o mais clebre visionrio de seu ofcio . como ajudou a fundar os alicerces do que hoje  uma indstria multibilionria que, alm dos quadrinhos, se desdobra em filmes campees de bilheteria, entre outros produtos rentveis. Sua histria  contada em Will Eisner  Um Sonhador nos Quadrinhos (traduo de rico Assis; Biblioteca Azul; 407 pginas; 59,90 reais, ou 41,90 reais na verso digital), de Michael Schumacher, escritor americano que tambm biografou Eric Clapton e Francis Ford Coppola. 
     Em sua convencional ordem cronolgica, a narrativa de Schumacher se arrasta no incio, quando trata da origem judaica e da famlia pobre de Eisner. Tudo chato, como no deveria ser. O autor peca por negligenciar histrias da infncia de Eisner que j foram retratadas pelo prprio em HQs como Ao Corao da Tempestade, autobiografia em que ele mostra, por exemplo, como usava a criatividade para fugir de antissemitas que o perseguiam nos cortios em que morava quando criana. 
     A leitura do livro engata ao chegar  fase em que, aos 19 anos, o biografado passa a trilhar seu caminho profissional. A histria  dividida em trs fases. Na primeira, Eisner batalha para firmar os quadrinhos como um negcio lucrativo. Seus prprios colegas eram o maior obstculo. Quadrinistas descreviam leitores como "dbeis mentais com 10 anos de idade". Lembra Stan Lee, contemporneo de Eisner e criador de personagens como Homem-Aranha e os  X-Men: "Quadrinhos eram considerados o nvel mais baixo da rea criativa". Contra todos os detratores, Eisner, com um investimento de 30 dlares, montou um pioneiro estdio para vender trabalhos a editoras e jornais. De incio, muitas de suas produes eram cpias de publicaes de pulp fiction. Em um dos poucos erros como empresrio, recusou comprar, por 130 dlares, os direitos autorais de Super-Homem. Mesmo assim, a empreitada deu certo. Eisner passou a empregar uma srie de talentos em incio de carreira, a exemplo de Jack Kirby (criador do Capito Amrica) e Bob Kane (de Batman; e que depois se tornaria um desafeto). 
     A guinada em direo  fama se deu em 1940, com The Spirit, sua criao mais famosa. Spirit, um heri mascarado, mas sem poderes, era diferente do Super-Homem ou Batman por ser falvel e protagonizar histrias repletas de humor e temas imprprios para crianas. Eisner provou que era possvel ter bons roteiros nas HQs  e vender milhes de cpias. O sucesso teve de ser interrompido quando ele foi convocado para servir na II Guerra Mundial. Seu dom o livrou da batalha: ficou em escritrios, desenhando quadrinhos para distrair e educar recrutas.  a segunda parte da histria, na qual sumiu do mundo das HQs. Acabada a guerra, casou-se e se dedicou ao negcio de desenhar para empresas e para o governo. 
     Eisner voltou aos holofotes nos anos 1970, com a ajuda do artista e empresrio Denis Kitchen, hippie que investia em HQs underground e quis republicar histrias do Spirit. Os exemplares se esgotaram e Eisner resgatou sua fama. Rico, passando dos 50 anos, viu a oportunidade de escrever o tipo de HQ que sempre quis: romances longos, com temas adultos, sem super-heris. Deu incio  terceira, e mais interessante, fase da carreira com Um Contrato com Deus. A histria  inspirada em sua filha, Alice, vtima de leucemia aos 16 anos. Eisner conta a trajetria de um pai que levava uma vida honesta at ver morrer a filha adotiva. O protagonista se revolta com Deus e rouba fundos de uma parquia para comprar um cortio. Isso at se redimir e devolver o dinheiro. Em uma ironia tpica de Eisner, seu personagem morre assim que realiza o ato de bondade. Um Contrato com Deus  a primeira graphic novel (romance grfico), termo do qual Eisner  um dos inventores, a ter sucesso comercial. Depois desse livro, continuou escrevendo quadrinhos de igual teor, quase sempre inspirados em sua vida. Quadrinistas, de Neil Gaiman (de Sandman) a Art Spiegelman (do premiado Maus), inspiram-se no trabalho de Eisner feito nessa retomada tardia. No  toa, o prmio mais importante da rea leva seu nome: o Eisner Awards. 
     Escrever sobre Eisner  um desafio e tanto: os maiores concorrentes so o prprio quadrinista e suas obras autobiogrficas sobre a vida na crise econmica das dcadas de 20 e 30. Michael Schumacher recorre ao detalhamento minucioso para honrar a histria. Esquece somente os defeitos do biografado. Eisner era talentoso e visionrio, mas tambm rude e mentiroso. Houve ocasies, no incio da carreira, em que plagiou colegas. Will Eisner ajuda a compreender quo incrvel era o quadrinista, mas no revela quo complexo era o indivduo.  


2. LIVROS  O FUTEBOL BEM ESCRITO
No romance O Drible, Srgio Rodrigues transforma a paixo brasileira pela bola em pano de fundo de um drama familiar construdo com inteligncia e refinamento.
FBIO ALTMAN

     H romances que arrebatam o leitor j no pontap inicial, ao primeiro minuto do primeiro tempo.  o caso de O Drible (Companhia das Letras; 218 pginas; 38 reais), de Srgio Rodrigues, colaborador do site de VEJA, titular de dois blogs, o Todoprosa, dedicado  literatura, e o Sobre Palavras, mergulho irreverente no portugus escrito e falado. A narrativa comea com uma detalhada descrio de um dos lances mais memorveis da histria do futebol, aquele da Copa de 1970 no qual Pel deixou a bola correr de um lado, foi para o outro e ps o goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz em desespero. O lance fez histria porque no terminou na rede. So doze segundos (vale a visita ao YouTube), do "gol que Pel no poderia deixar de perder", nas palavras de Rodrigues, estendidos em catorze pginas soberbas. 
     O relato da jogada  o incio da reaproximao, improvvel e doda, de um pai octogenrio, um veterano cronista esportivo, com o filho a quem no via fazia muitos anos. Dali para a frente, tem-se um drama familiar comovente, em torno de um relacionamento que tenta ser salvo na prorrogao. O Drible no  um romance sobre futebol. Trata-se, sim, de uma histria de famlia mergulhada no ambiente do futebol. Rodrigues concede ao esporte mais popular do pas, palco de glrias e derrocadas, de lembranas incontornveis, uma dimenso indita na literatura brasileira. Grandes escritores nunca ligaram para o futebol,  exceo dos cronistas e de um ou outro poeta. Para Graciliano Ramos, em texto irnico de 1921, chutar a bola era esporte com "entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um ms". Tosto, ao ler em primeira mo o livro, tendo se identificado modestamente como personagem secundrio do bal de Pel (foi ele quem deu o passe para o rei, no estdio Jalisco, em Guadalajara), resumiu: " o livro que gostaria de ter escrito". 
     Rodrigues escapa em O Drible de todas as armadilhas. A maior delas, o uso recorrente de expresses futebolsticas para tratar da vida  intencionais nesta resenha, desde o pontap inicial l do princpio, apenas para demonstrar como podem ser tolas ,  uma das pragas mais daninhas da ltima flor do Lcio quando faz tabelinha com o esporte breto. Rodrigues, com total domnio do idioma (no h palavra que sobre), ironia afiada e conhecimento enciclopdico do que j se escreveu a respeito do futebol, ri desse atalho pobre quando se imagina que ele tambm, em determinado ponto da narrativa, tenha cado na armadilha. Que nada. Um dos personagens centrais, Murilo Filho, o jornalista aposentado, ao decidir rabiscar um romance dentro do romance, nos revela que o autor tem exata noo de como a obviedade pode ser ruim e redutora. "Relendo me dei conta de que aquilo no passava de um angu empelotado de tentativas de espelhar sintaticamente o jogo. Tinha a frase-trivela, a elipse da vaca, a goleada adverbial de modo, a retranca cabralina, o futebol total ps-moderno", diz Murilo Filho. Esse mesmo recurso de iluminar um problema to logo ele se apresenta ocorre quando as citaes de referncias pop parecem brotar em exagerada profuso  o seriado Tnel do Tempo, o filme De Volta para o Futuro, Doug e Tony, Marty McFly, National Kid, a risadinha cnica de Muttley, o Topo Gigio  e vem o alerta: "O pop no tem histria. Lamento ser eu a te dar a notcia. Para existir histria  preciso existir algum interesse das geraes seguintes em contar essa histria, aprender com ela, tirar lies. (...) O pop tem revival, mas no tem histria". 
     O Drible tem. Para alm de sua extraordinria construo, feita de camadas de real (Pel e cia.), de imaginrio (Peralvo, o sobrenatural de almeida, o craque que nunca existiu, mas seria maior que Pel no fosse uma tragdia) e de histria do Brasil (com nfase no tempo do regime militar e nos anos 80), alm do truque  Hitchcock de entregar antes ao leitor o que alguns personagens s sabero mais tarde,  leitura comovente para quem, no pas do futebol, imaginou que ele fosse desimportante. To desimportante que seria incapaz de permitir boa literatura,  exceo de alguns textos de Nelson Rodrigues e de uma ou outra coisa menor de Carlos Drummond, alm de um bom romance memorialista de Michel Laub (O Segundo Tempo). Dizia Nelson: "No h um nico e escasso personagem de romance, neste pas, que saiba cobrar um escanteio". Os de Srgio Rodrigues sabem. Sabem tanto que so at capazes de cunhar uma frase rodriguiana, lapidar como as do dramaturgo, mas que ele nunca proferiu, ao tratar de Peralvo, o puro, o gnio que no foi: "Perto desse menino, So Francisco de Assis  um canalha de Shakespeare". Para quem gosta de futebol bem escrito, O Drible  adesivo. Para quem no liga para 22 homens atrs de uma bola, vale pela trama cheia de vaivns e espanto  como naquele lance em que Pel foi de um lado, a bola do oposto e o goleiro uruguaio voou sem nada alcanar, com o perdo do apoio na metfora futebolstica inescapvel, mas inaceitvel. 

O dia em que Pel desafiou Deus e perdeu
O velho detm o vdeo. Pousa o controle remoto no brao do sof, olha nos seus olhos outra vez e diz, o que houve aqui. Neto, foi simples: Pel desafiou Deus e perdeu. Imagine se no perdesse. Se no perdesse, nunca mais que a humanidade dormia tranquila. Pel desafiou Deus e perdeu, mas que desafio soberbo. Esse gol que ele no fez no  s o maior momento da histria do Pel,  tambm o maior momento da histria do futebol. Voc entende isso? A interveno do sobrenatural, o relmpago de eternidade que caiu  esquerda das cabines de rdio e TV do simptico Jalisco, 17 de junho de 1970? Pois posso garantir que foi isso que aconteceu, eu estava l e sei, e se for mais ainda eu no vou me surpreender, mas foi isso, no mnimo, que aconteceu e que o videoteipe nos d a graa de ver e rever para sempre, est vendo? Coisa tremenda, Tiziu.
Trecho de O Drible, de Srgio Rodrigues


3. CINEMA  PICO FOTOGNICO
A nova adaptao de O Tempo e o Vento impressiona mais pela beleza das imagens do que pelas qualidades dramatrgicas da histrica saga dos pampas gachos.

     No  a primeira vez que O Continente, o primeiro volume da trilogia O Tempo e o Vento,  adaptado para o cinema. Seus dois personagens mais emblemticos, a cabocla Ana Terra e o destemido capito Rodrigo Cambar, forneceram enredo para dois filmes produzidos nos anos 1970  um deles, Ana Terra, de Durval Garcia, chegou a representar o Brasil em Cannes em 1972. E houve tambm duas adaptaes para a TV, em 1967 e 1985. Mas O Tempo e o Vento (Brasil, 2013), j em cartaz,  at aqui a verso mais ambiciosa do romance de Erio Verssimo (1905-1975), dirigida em cadncia de pico por Jayme Monjardim e com fotografia, em triunfal tom dourado, de Affonso Beato. 
     A histria  narrada em flashback a partir do cerco do casaro do cl Terra Cambar pela famlia rival, os Amaral, durante a Revoluo Federalista no Rio Grande do Sul, no fim do sculo XIX. Velha e doente, Bibiana Cambar (Fernanda Montenegro) recebe em seus delrios a visita do marido, o capito Rodrigo (Thiago Lacerda), morto quarenta anos antes, e vai lhe contando a saga. 
     Surge assim em cena o ndio Pedro Missioneiro (Martin Rodriguez), que, ferido,  salvo pela famlia de Ana Terra (Cleo Pires). Vivendo isolados de tudo e de todos nos pampas gachos,  inevitvel que os jovens se envolvam: ela engravida, ele  morto pelo pai e pelo irmo dela. A partir da se sucedem os muitos conflitos, amores, dramas e tragdias que do forma  trama. E isso no  apenas uma maneira de simplific-la e resumi-la: nem os copiosos 127 minutos de durao do filme so suficientes para abrigar tanta gente e tanto acontecimento. Falta espao, por exemplo, para explorar um personagem importante como o patriarca Ricardo Amaral (Jos de Abreu). Mesmo a jovem Bibiana (Marjorie Estiano) no  tudo o que poderia ser, apesar do empenho da atriz. A exceo  uma atuao vigorosa do veterano Paulo Goulart no papel do arrogante e tirnico coronel Amaral Neto, a nmese de Rodrigo. 
     No mais, o que se tem so belas paisagens dos pampas (o filme foi rodado nas regies de Bag e Pelotas), vistosos e breves tableaux vivants para as cenas de festas e batalhas e um exagero de auroras e crepsculos para demarcar passagens de tempo ou enfatizar aspectos dramticos. Monjardim no apresenta mais do que aquilo de que j demonstrou ser capaz na TV:  competente com atores, sabe criar composies de eficiente beleza plstica e aqui consegue escapar do didatismo de seu filme anterior, Olga. Mas falta-lhe uma fora que faa jus ao vigor e  seduo da prosa do autor. Ao menos ele deixa a porta aberta para novas, e talvez mais instigantes, incurses pelo rico painel histrico de Verssimo. 
MRIO MENDES


4. MSICA  CANTA, DANA, ATUA...
Justin Timberlake  reconhecido como um artista de mltiplos talentos  mas no se safou de um mico tropical ao divulgar seu novo filme no Brasil. 

     No salo de um hotel de luxo em Copacabana, no Rio de Janeiro, Justin Timberlake passou pelos piores dissabores que costumam acompanhar a visita de um artista internacional ao Brasil. Foi desafiado por uma reprter de televiso a repetir um termo idiota que no faz sentido em ingls. Recebeu  e recusou  pedidos dos jornalistas para tirar fotos e autografar discos. E foi presenteado com um molde da regio gltea de uma ex-participante de reality show. Timberlake mal teve oportunidade de falar do filme que estava l promovendo  Aposta Mxima (Runner Runner, Estados Unidos. 2013), que estreia no pas nesta sexta-feira e no qual ele vive um universitrio que se une a um mafioso da jogatina online. "Gosto do personagem porque ele no  totalmente bom nem mau", conseguiu dizer, em uma tpica resposta ensaiada para eventos de divulgao. No  nem de longe a melhor investida dele no cinema: no filme, todos, inclusive Timberlake, parecem contaminados pela canastrice de Ben Affleck. 
     A msica ainda  o terreno onde o talento de Timberlake mais se expande. No dia seguinte ao mico tropical, ele fez uma das melhores apresentaes do Rock in Rio. Mostrou, mais uma vez, que  um entertainer nato: a performance durou quase duas horas e incluiu at uma cover dos Jacksons. Nesta semana chega s lojas fsicas e virtuais a segunda parte de The 20/20 Experience, que marcou o retorno de Timberlake ao mercado musical depois de sete anos. "No me preocupei com o tempo que passei sem lanar nada. Gravei o disco com calma e at dei folgas para a equipe nos fins de semana", diz. 
     The 20/20 Experience 2  to megalmano quanto sua primeira parte. So faixas de loooonga durao, de cinco a onze minutos, em gneros que vo do funk ao rock, do hip-hop  balada romntica. Mas Timberlake reservou as melhores canes para a segunda parte.  o caso do single Take Back the Night, homenagem  disco music e a Michael Jackson: "Minha gerao foi toda influenciada por Michael. E, como no havia TV a cabo na minha casa, em Memphis, eu me apaixonei primeiro pela  msica dele para s depois conhecer os clipes e as coreografias". O monlogo do cantor na faixa True Blood lembra o poema gtico recitado por Vincent Price em Thriller, sucesso de Jackson. E h boas participaes dos rappers Drake, em Cabaret, e Jay-Z, em Murder, que cita Yoko Ono como exemplo de mulher sexualmente poderosa  to poderosa que at acabou com os Beatles. Justin Timberlake tambm tem seu merecido poder no showbiz. E ainda assim enfrenta roubadas com bom humor. 
SRCIO MARTINS


5. TELEVISO  DESESPERAI-VOS,  O FIM
Depois de cinco gloriosas temporadas, Breaking Bad, que consagrou Walter White na galeria de anti-heris das sries americanas, chega a seu ltimo episdio.
MARCELO MARTHE

     A dona de casa Skyler (Anna Gunn) sofre um colapso nervoso num jantar em famlia. Ela se levanta da mesa sem explicao e, arrastando-se como um zumbi, submerge na gua gelada da piscina. Depois de resgatada, Skyler implora para que seus dois filhos sejam levados para uma temporada sem prazo de trmino na casa de sua irm. Ento, engata uma discusso dolorosa com o marido. "S me resta esperar", diz ela. Pausa tensa. "Estou contando os minutos at o seu cncer voltar." Nessa altura, so compreensveis os sentimentos de Skyler em relao ao marido. J o espectador dificilmente festejar o fim da saga de Walter White (Bryan Cranston)  e, a despeito das deformidades ticas do personagem, pode at nem desejar sua morte. Nas cinco temporadas da srie Breaking Bad, que ter seu 62 e ltimo episdio exibido nos Estados Unidos no domingo 29, o roteirista Vince Gilligan fez um estudo contundente  talvez o melhor j visto na TV ou no cinema  dos efeitos da corrupo moral sobre o destino de um homem. 
     White era um professor de qumica que tinha de se desdobrar em um segundo emprego na desrtica Albuquerque, no Novo Mxico, para dar conta das obrigaes financeiras. Na virada dos 50 anos, com a mulher no meio de uma gravidez tardia, ele descobre que tem um cncer de pulmo incurvel. Desesperado para garantir o futuro da famlia, ele rompe com a moralidade e passa a canalizar seu talento cientfico para uma atividade ilcita: a fabricao de metanfetamina, uma droga devastadora.  Breaking Bad no ameniza as coisas para o espectador, nem para White. A reside, contudo, a forca de uma histria em que at o menor dos papis e as reviravoltas mais mirabolantes se somam num conjunto harmnico. Ao terminar, a srie totalizar 2978 minutos to viciantes quanto a droga azul fabricada por seu protagonista. Vcio, alis, potencializado pela internet. De incio, Breaking Bad era uma srie cultuada, mas no um estouro de pblico. A possibilidade de assistir aos seus episdios de uma enfiada s no Netflix mudou isso. A primeira metade da ltima temporada j est disponvel pelo servio online  e sua ntegra ser exibida pelo canal AXN a partir de sexta-feira. 
     No fim da dcada de 90, Famlia Soprano abriu a porteira para o anti-heri na teledramaturgia americana. Mudou, com isso, a cara da televiso. Walter White ocupa um lugar  direita do pai por outra contribuio: coube a Breaking Bad expandir os limites criativos  e morais  do gnero. A srie comeou num ritmo de comdia do absurdo, mas foi assumindo os tons de um drama sombrio  medida que seu protagonista se convertia em monstro. White mentiu e traiu parentes e associados no crime, como seu ex-aluno e parceiro Jesse Pinkman (Aaron Paul). Cometeu atos brutais, inclusive contra inocentes, para lidar com as contingncias de um mercado controlado por tubares que ora desejam se associar ao lendrio Heisenberg  pseudnimo assumido por White, em homenagem ao terico alemo da mecnica quntica , ora querem arrancar sua pele. Mas o fez com cada vez mais gosto. Tome-se o embate com Gus Fring (Giancarlo Esposito), empresrio cuja cadeia de fast-food serve de fachada para os negcios mafiosos. Ou  pior  o duelo cnico com seu cunhado da agncia federal antidrogas, Hank (Dean Norris). 
     Apesar da moral torta, o anti-heri das sries ps-Sopranos costuma manter os ps firmes na rotina do americano mdio. Quando no est derretendo cadveres de inimigos em barris com cido, White fica em casa embalando o bero da filha. O timing de surgimento de uma figura assim foi perfeito: o drama do pai de famlia s voltas com dvidas chegou  TV americana em 2008, no furaco da crise econmica. H muito, porm, ele cruzou o Rubico que separa o anti-heri tpico da pura malevolncia. O melhor retrato disso  a inverso de lugar com Jesse: o parceiro drogado se revelou, afinal, um jovem de bom corao  e um contraponto para a falta de escrpulos do ex-professor. 
     Breaking Bad  uma lio de como as escolhas corruptas envenenam o carter at a morte deste  se bem que os germes da maldade talvez estivessem l desde sempre.  lcito matar em nome da famlia? Qualquer que seja o desfecho da srie, essa ltima questo j tem resposta: a ideia de usar um meio destrutivo para proteger mulher e filhos s resultou no desmoronamento do edifcio familiar. Em dado momento, Skyler ajudou o marido a lavar dinheiro sujo  mas se arrependeu. White, pelo jeito, no far mea-culpa. O antepenltimo episdio, intitulado "Ozymandias", apresenta um paralelo entre a trajetria do personagem e o soneto homnimo do poeta ingls Percy Shelley (1792-1822). Nos versos, a esttua em runas de um fara do Egito serve de alegoria para o carter ilusrio dos delrios de onipotncia. Ozymandias (ou Ramss II), o "rei dos reis", proclama, na inscrio do seu pedestal: "Contemplai minhas obras,  poderosos, e desesperai-vos!". Mas ao seu redor, como na vida de White, tudo o que resta  decadncia e vazio. 


6. VEJA RECOMENDA
BLU-RAY
A CAA (JAGTEN, DINAMARCA, 2012. CALIFRNIA)
 O dinamarqus Mads Mikkelsen, que neste ano brilhou como o personagem- ttulo da srie Hannibal, deu outra demonstrao assombrosa de sua excelncia no papel de Lucas, um professor de jardim de infncia que, por uma infeliz conjuno de casualidades,  falsamente acusado de molestamento sexual por uma aluninha. Para a plateia, o diretor Thomas Vinterberg deixa claro que nunca, jamais, qualquer coisa imprpria aconteceu; Lucas, ademais, seria incapaz de violncia ou coao. Portanto seria de esperar que, conhecendo-o to bem como o conhecem, os seus amigos (um dos quais  o pai da menina) e colegas de trabalho dessem a Lucas ao menos o benefcio da dvida. Mas o pnico instaurado pela acusao em um instante d lugar s concluses apressadas, que por sua vez do lugar ao nojo  o qual evolui para o dio e ento para a fria. Perto do final, numa cena to lancinante que chega a machucar, tem-se a impresso de que Vinterberg (do tambm magistral, e igualmente pessimista, Festa de Famlia) vai acenar com uma redeno. Mas o desfecho dilacerador desfaz a iluso de que, tendo chegado  selvageria, a natureza humana dela possa se recuperar.

CINEMA
PREENCHENDO O VAZIO (LEMALE ET HA' HALAL, ISRAEL, 2012. EM CARTAZ EM SO PAULO)
 Nascida em uma famlia secular, a israelense Rama Burshtein estudou cinema e ento, ao se casar, adotou o judasmo ortodoxo. Aos 46 anos, ela se revela uma cineasta de grande talento com este drama tingido por nuances inesperadas. Shira (Hadas Yaron), de 18 anos, est entusiasmada com a ideia do noivado arranjado com um rapaz de sua idade. Mas ento sua irm mais velha morre no parto e sua me, que no quer perder o neto recm-nascido, prope que Shira se case com Yochai (Yiftach Klein), o cunhado vivo, antes que ele entre em outra unio. Ambos, Shira e Yochai, esto cheios de dvidas  e os familiares e amigos endossam essas dvidas, preocupados com a possibilidade de que Shira se sinta obrigada a abrir mo do direito de comear sua vida pelo comeo. A perspectiva que a diretora oferece  nica: uma viso ntima e vvida de um grupo em que o respeito aos laos comuns tem de ser equilibrado com a razo pessoal, e justa, para que esses laos sejam firmados. "Por que voc quer se casar com Yohai?". pergunta o rabino a Shira. "No  uma questo de sentimentos, e sim do que  certo", diz ela. "Mas, minha menina, a nica questo que existe aqui  essa, a dos sentimentos", esclarece o rabino.

LIVROS
HOTEL SAVOY (TRADUO DE SILVIA BITTENCOURT; ESTAO LIBERDADE; 184 PGINAS; 38 REAIS) E A LENDA DO SANTO BEBERRO, DE JOSEPH ROTH (TRADUO DE MRIO FRUNGILLO; ESTAO LIBERDADE; 80 PGINAS; 26 REAIS)
 De origem judaica, nascido em Brody, cidade hoje pertencente  Ucrnia, Joseph Roth (1894-1939) foi um cronista afiado do mundo instvel do entreguerras  em particular, da dissoluo do outrora gigantesco Imprio Austro-Hngaro. Estes dois romances breves mas poderosos representam bem os dilemas morais e at religiosos de uma Europa colhida entre duas catstrofes. Hotel Savoy, de 1924,  narrado em primeira pessoa por Gabriel Dan, judeu russo que, em uma cidade no nomeada, se hospeda no hotel do ttulo, ambiente cosmopolita mas decadentista. A Lenda do Santo Beberro traz como protagonista um vagabundo de rua que ganha uma generosa e injustificada doao de um senhor rico, e a partir da fica atado a uma obrigao religiosa. A histria tem lugar em Paris, cidade onde o inquieto Roth morreu. 

ASSIM NA TERRA, DE LUIZ SRGIO METZ (COSACNAIFY; 224 PGINAS; 35 REAIS)
 Jornalista e letrista conhecido do circuito da msica nativista do Rio Grande do Sul, Luiz Srgio Metz (1952-1996) era natural de Santo ngelo, cidade histrica gacha. Montava a cavalo e era familiarizado com a vida campeira, matria central desta sua nica narrativa longa (Metz morreu de cncer no ano seguinte ao lanamento do livro). Assim na Terra, porm, pouco tem a ver com o regionalismo realista tantas vezes repetido e diludo dos anos 1930 em diante:  um vertiginoso experimento verbal. A paisagem gacha ganha cores e distores impressionistas, e seus rudes personagens dialogam com Bash, Kafka e Eliot, entre outras referncias literrias na aparncia distantes.  uma histria de errncia, quase um argumento para um road movie campeiro, culminando, na ltima parte do livro, em uma cavalgada de cores mticas  mas tambm uma narrativa contemplativa, em que a sonoridade da frase conta tanto quanto a matria narrada (em tempo: nenhuma semelhana com certos genricos de Guimares Rosa que vicejam por a). Assim na Terra ganha agora uma bem-vinda  alis, necessria  reedio.

DISCO
ESTADO DE NUVEM, BRUNO SOUTO
(INDEPENDENTE)
 Bruno Souto  guitarrista e vocalista do Volver, uma das melhores bandas do pop rock nacional. Em uma dcada de atividade, o grupo recifense desenvolveu uma sonoridade influenciada pelo power pop dos anos 1960 e 1970. Em Estado de Nuvem, seu primeiro disco-solo, Souto amplia essas referncias musicais. O pop rock ainda d o tom, mas ele divide espao com outros gneros. H, por exemplo, um balado rasgado no melhor estilo popular romntico dos anos 1970 (Dentro), uma cano inspirada em Roberto Carlos (Eu e o Vero) e uma soul music de inclinao brasileira (Aurora). Mesmo quando se volta para o pop, Souto se distancia das guitarras do Volver.  o caso da faixa-ttulo, com seu baixo bem marcado e uma maior predominncia do teclado, e de Dance, uma disco torta na qual o produtor Joo Vasconcelos (ex-guitarrista do grupo Los Porongas, outro destaque do cenrio alternativo) se desdobra na guitarra e nos sintetizadores. Souto se junta  vanguarda tambm na viso de negcios: Estado de Nuvem pode ser baixado de graa no site www.brunosouto.com.


7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA
2. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO 
3. Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
4. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO
5. A Guerra dos Tronos. George R.R. Martin. LEYA BRASIL
6. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA 
7. A Dana dos Drages. George R.R. Martin. LEYA BRASIL
8. A Tormenta das Espadas. George R.R. Martin. LEYA BRASIL
9. A Fria dos Reis. George R.R. Martin. LEYA BRASIL
10.   O Festim dos Corvos. George R.R. Martin. LEYA BRASIL

NO FICO
1. Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA DO BRASIL
2. 1889. Laurentino Gomes. O GLOBO 
3. 1808. Laurentino Gomes. PLANETA 
4. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
5. 1822. Laurentino Gomes. NOVA FRONTEIRA 
6. Sonho Grande.  Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
7. O Mnimo que Voc Precisa Saber para No Ser um Idiota. Olavo de Carvalho. RECORD 
8. A Graa da Coisa. Martha Medeiros. L&PM 
9. Carlos Wizard  Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE
10. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil. Leandro Narloch. LEYA BRASIL

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Receitas Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER
4. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE 
5. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
6. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
7. Seja a Pessoa Certa no Lugar Certo. Eduardo Ferraz. GENTE
8. O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA
9. Quem Me Roubou de Mim? Fbio de Melo. CANO NOVA 
10. Terapia Financeira. Reinaldo Domingos. DSOP 


8. J.R. GUZZO  DESCIDA AO INFERNO
     A desgraa narrada a seguir  real, est baseada em fatos pblicos e chegou, alguns anos atrs, a causar certa comoo neste Brasil de hoje, que parece a caminho de se transformar em um dos pases a ser estudados com maior ateno, algum dia, por possveis pesquisadores de uma histria mundial da infmia. Trata-se de um episdio chocante por sua crueldade em estado puro, e o resultado inevitvel de uma conspirao no declarada dos agentes do poder pblico para permitir a prtica aberta dos delitos mais selvagens  por serem eles mesmos os autores dos crimes, ou pelo uso que fazem da letra da lei para livrar os envolvidos de qualquer risco de punio. Acontece quase todos os dias, em todo o Brasil, sob a indiferena absoluta das mais altas autoridades e a proteo de um conjunto de leis escritas com o objetivo de praticamente abolir a culpa na Justia penal brasileira. No h remdio conhecido contra isso  
     Ainda recentemente a reprter Branca Nunes, da edio digital de VEJA, fez uma reconstruo passo a passo da tenebrosa descida ao inferno aqui na terra, entre outubro e novembro de 2007, de uma menina de 15 anos. L.A.B., presa sob a acusao de furtar um telefone celular numa cidade do interior do Par, a 100 quilmetros de Belm, e punida segundo a hermenutica que vale no Brasil real. O propsito da reportagem era mostrar, seis anos depois, que fim tinham levado os personagens centrais da histria  um smbolo fiel de aberraes praticamente idnticas que acontecem a cada dia neste pas, e do tratamento-padro que recebem do poder pblico. A visita a essa tragdia "confirmou o apronto", como se dizia na linguagem do turfe. Nada de embargos infringentes para L.A.B. Nada de advogado "Kakay" pregando em seu favor. Nada de todo esse maravilhoso facilitrio que faz da lei brasileira um milagre permanente em benefcio dos ricos, poderosos e influentes  e transforma culpa em mrito, como Cristo transformou gua em vinho. Tudo, naturalmente, em favor dos responsveis por sua agonia. 
     L.A.B., como relata a reportagem, foi apanhada na cidade de Abaetetuba tentando furtar um celular e uma correntinha de prata pertencentes, para seu azar, ao sobrinho de um investigador de polcia da delegacia local. Chamados pelo rapaz, o tio e dois colegas levaram a garota, um toco de gente com menos de 40 quilos de peso e 1,5 metro de altura, para a delegacia da cidade  onde foi trancada numa cela com mais de vinte homens. L.A.B. ficou 26 dias presa, durante os quais foi estuprada regularmente, cinco ou seis vezes por dia. No se cogitou no seu caso na possibilidade, digamos, de uma priso domiciliar, alternativa que o bondoso ministro Celso de Mello, do STF, acaba de abrir, em nome do cumprimento rigorosssimo da lei, para gigantes de nossa vida poltica condenados no mensalo. No se cogitou, sequer, no fato de que ela era menor de idade, que no podia ser presa nem, menos ainda, jogada num xadrez exclusivamente masculino. L.A.B., na verdade, foi presa dentro da priso: arrastada para o fundo da cela, de onde no podia ser vista, tinha a sua miservel comida confiscada pelos outros presos, que s lhe permitiam comer se no desse trabalho durante os estupros. No tinha direito a prato  precisava pegar sua comida direto do cho.  noite, era acordada por chamas de isqueiro ou pontas de cigarro, quando algum dos presos requeria os seus servios. A ttulo de ilustrao, um deles, o mais ativo de todos, respondia pelo apelido de "Co". Que tal? 
     O mais interessante do caso, talvez,  que as autoridades locais legalizaram, a seu modo, todo o procedimento. A delegada Flvia Vernica Pereira autorizou a priso de L.A.B. quando a menina lhe foi entregue pelos investigadores que a capturaram. Dois dias depois, a juza Clarice Maria de Andrade assinou seu auto de priso em flagrante, sabendo perfeitamente, como a delegada, o que iria acontecer na cela lotada de machos. O desfecho da histria  um retrato admirvel do Brasil de 2013. Quando o caso comeou a fazer rudo na imprensa, L.A.B. foi solta  e desde ento, nestes seis anos, nunca mais se ouviu falar dela. Os nicos punidos foram "Co" e um de seus comparsas, que j estavam presos. A juza Clarice, a mais graduada responsvel pelo episdio, no sofreu processo penal. Foi apenas aposentada, mas recorreu at chegar ao STF  que anulou em 2012 a punio, por julg-la "excessiva". Hoje a doutora Clarice  juza titular em outra comarca do Par. 
     Este  o Brasil que no muda. 


